Cinco novos direitos humanos para a Era Digital

Publicado a 21/11/2018, 05:21 por Luis Pitta -org-   [ atualizado a 22/11/2018, 02:14 ]
Apresento cinco novos direitos humanos que integram aquilo a que chamo de “Manifesto de Ética Digital”
Por   (27 Julho 2017)

 

“Manifesto de Ética Digital

Apresento cinco novos direitos humanos que devem fazer parte daquilo que chamo de “Manifesto de Ética Digital”:

 1. O direito a permanecer natural, ou seja, “meramente” biológico e orgânico.

Devemos continuar a ter a escolha de existir num estado “não aumentado”. Precisamos de manter o direito de trabalhar ou ser empregado, usar serviços públicos, comprar coisas e funcionar na sociedade sem a necessidade de implantar tecnologia com, ou, o mais importante, dentro dos nossos corpos. Já existem vários receios decorrentes dos problemas inerentes à utilização de dispositivos móveis e social media. No entanto, pode-se facilmente imaginar um futuro em que possamos ser cada vez mais forçados a usar algum tipo de dispositivo, visores ou óculos de Realidade Aumentada ou Realidade Virtual, para nos qualificarmos a um posto de trabalho, ou pior ainda, sermos obrigados a usar ou implantar “aplicativos de wetware” específicos ou interfaces de software denominadas BCI´s (Interfaces computador-cérebro) como uma condição de trabalho não negociável. Os seres humanos podem em breve não ser suficientemente bons – e de alguma forma eu não acho que este seja um futuro muito desejável.

 

2. O direito de ser ineficaz se, quando e onde tal define a nossa condição básica de humanos.

Devemos ter a escolha de sermos mais lentos e menos capazes do que a tecnologia, e nunca devemos tornar a eficiência mais importante do que a humanidade. Embora seja muito rápido, muito mais eficiente e seja mais barato usar diagnósticos digitais de saúde através de plataformas como o Scanadu, em vez de visitar um médico sempre que estou doente ou que preciso de um exame, estas não devem tornar-se o único modo “aprovado” de fazer um diagnóstico. Eu acredito que estas tecnologias têm potencialidades e que podem ser uma das soluções para reduzir o custo da saúde, globalmente. No entanto, isso significa que devemos penalizar as pessoas que optam por fazer de outra forma, ou forçar o cumprimento daqueles que não querem os seus dados de saúde disponíveis na cloud?

 

3. O direito de se desconectar.

Devemos manter o direito a “desligar” da rede e de nos desconectarmos das ligações e comunicações digitais. Consideremos a probabilidade de que muitos empregadores e empresas garantam uma hiperconectividade (AR, VR e até BCIs) como um requisito padrão no futuro próximo, ou que os utilizadores possam tornar-se responsáveis ​​pela “desconexão não autorizada” se não puderem ser rastreados na rede. Eu acredito que ser independente, autónomo e desconectado nos horários em que escolhemos é um direito fundamentalmente importante porque a desconexão permite-nos reorientar o nosso ambiente e “aproveitar o momento”, o que é essencial para o bem-estar humano. Também reduz o risco de “obesidade digital” e diminui o alcance da vigilância. Estar offline pode, de facto, ser o novo luxo, mas também deve ser um direito digital básico.

 

4. O direito de ser ou permanecer anónimo.

Mesmo neste novo mundo de tecnologias exponenciais e hiperconectado devemos, ainda, ter a opção de não sermos identificados e/ou rastreados, como quando se usa um aplicativo, um bot ou uma plataforma, ou ao comentar ou criticar, desde que seja inofensivo para outros e que não estejamos a infringir os direitos de qualquer outra pessoa. Certamente existem algumas ocasiões óbvias onde o anonimato real seria impossível e provavelmente não seria razoável de esperar, como acontece com operações bancárias e financeiras online. No entanto, devemos ter a certeza de que continuam a existir espaços onde o rastreamento completo não é exigido ou não constitui a norma, como quando se expressam opiniões políticas, se partilham fotos pessoais ou se obtêm conselhos médicos. O anonimato, o mistério, o acaso e os erros são atributos humanos cruciais que não devemos procurar remover por meios tecnológicos.

 

5. O direito de empregar ou envolver pessoas em vez de máquinas.

Não devemos permitir que as empresas ou empregadores estejam em desvantagem se optarem por usar pessoas em vez de máquinas, mesmo que seja mais caro e muito menos eficiente. Em vez disso, devemos considerar a estipulação de taxas fiscais para aqueles que aderem à automação (robots) ou aplicar impostos às empresas que reduzem drasticamente o número de colaboradores a favor das máquinas ou Inteligência Artificial. Esses novos fundos poderiam então ser disponibilizados para formar pessoas que se tornaram vítimas do desemprego tecnológico.  Qual o grau de liberdade que estamos dispostos a sacrificar para sermos mais eficientes… ou mais seguros? Quais os riscos que incorremos? E que oportunidades surgem neste contexto?

 

Outras leituras:

Teve oportunidade de acompanhar o meus artigos anteriores Tecnologia vs Humanidade e Megashifts ?

Face às tecnologias exponenciais e transformações em curso, como podemos minorar o impacto negativo dos avanços tecnológicos sem anular as suas vantagens?


Retirado de: www.marketing-vendas.pt em 20setembro2018